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UMA VIAGEM PELO MUNDO FANTÁSTICO DA PENEDENSE ZURICA PEIXOTO


 

Peixoto (1914 – 2005) no ano de seu centenário de nascimento. Uma biografia sucinta ilustrada com fotos que ela mesma conservou durante toda uma vida – 91 anos incompletos.

Uma criatura incrível, otimista incurável, sensível, altruísta, apaixonada pela vida. E religiosa ao extremo, preocupada sempre com o próximo – um “ser solar”, como bem a definiu o jornalista Antonio Castigliola (1951 – 2010). E que nos legou uma centena de escritos: redações, crônicas, poesias, pensamentos e orações, que quase foram parar no lixo, por incúria de parentes mais jovens que consideram reverenciar a memória dos que já morreram e cultuar o passado “uma coisa de velho”.

Nascida na manhã de 16 de dezembro de 1914, quarta-feira, em um antigo sobrado da Rua Siqueira Campos, na interiorana e histórica cidade de Penedo (1534/1560), nas Alagoas, Zurica era a filha caçula do casal Laura Galvão Peixoto (1889 – 1973) e Fernando da Silva Peixoto (1889 – 1980), irmã de Danilo Galvão Peixoto (1911 – 1981), Murilo Galvão Peixoto (1912 – 1935) e Perilo Galvão Peixoto (1913 – 2002).

Logo depois a família Peixoto mudou-se para um Chalé situado no bairro de Cajueiro Grande, construído por seu proprietário, Sr. Loureiro, e vendido ao Sr. José Vieira de Figueiredo, sendo posteriormente adquirido pelo Sr. Fernando da Silva Peixoto, um dos oito filhos do Comendador Manoel da Silva Peixoto (1847 – 1910) – comerciante português, natural de Vila de Fafe, a quem Penedo deve o início do processo de industrialização de toda a região na segunda metade do século 19 – casado com a penedense Anna da Silva Peixoto (1855 – 1932).

A REFORMA E AMPLIAÇÃO DO CHALÉ

O empresário Fernando da Silva Peixoto, um homem culto, refinado e de bom gosto – que tocava piano, desenhava, escrevia poesias em francês e viajava a Paris – reformou suas dependências, tanto na parte térrea (criando uma sala de aulas e de projeção cinematográfica, adega, banheiro social moderno, acomodações para domésticos, área de serviço e um jardim interno) como na superior (aumentou dois quartos e a varanda que ladeava a sala de jantar). Fez ainda um grande terraço que dava entrada para a parte principal da casa.
Os dias mais felizes da existência de Zurica Galvão Peixoto foram vividos ali durante 20 anos, com todos os familiares, cercada de carinho e da amizade dos parentes, de bons vizinhos e amigos daquela época. O Chalé ficou conhecido como “Chalé dos Peixotos” ou “Chalé de Seu Fernandinho” – ninguém falava em “Loureiros”.

Zurica alfabetizou-se no Colégio de Dona Celeste Jambeiro e irmã. Posteriormente cursou o Colégio Imaculada Conceição e teve boas professoras particulares, entre elas, Isabel Marsiglia e Linaura Imbuseiro, de quem se tornaria grande amiga por toda a vida. Por fim, completou sua esmerada educação com uma preceptora irlandesa, Mrs. Margaret Edmond Doyle, contratada no Rio de Janeiro pelo pai, sempre preocupado com a instrução dos filhos. Mrs. Doyle, que garantia descender do escritor e médico britânico Sir Arthur Conan Doyle (1859 – 1930) – o criador da personagem detetivesca de Sherlock Holmes -, morou em sua companhia no Chalé durante seis anos.

A SAÍDA DOS PEIXOTOS DE PENEDO

No Chalé dos Peixotos viveriam todos felizes para sempre não fora a Revolução de 30 – quando teriam sofrido perseguição política -, ou ainda ocorrido acirradas brigas familiares pelo controle das empresas (Indústria Têxtil de Penedo, 1.112 trabalhadores), e, também, uma desavença em torno de dois times de futebol mantidos pelos irmãos: o alvo e rubro Sport Club Penedense (1909), de Fernando da Silva Peixoto (1889 – 1980), com sede no Cajueiro Grande, e o Santa Cruz Futebol Clube (1917), em azul e branco, de José da Silva Peixoto (1899 – 1977), o Tio Zeca, instalado no Barro Duro. A briga incluiu a contratação remunerada de jogadores de equipes adversárias, até de outro estado, um caso inédito no futebol brasileiro, em que predominava então o amadorismo. Especula-se uma conjugação dos três fatores como causadores do dissentimento.

Em 1933 o Chalé foi posto à venda por quantia irrisória e, pressionado, Seu Fernandinho rumou com a família para o exílio em Maceió. Em 1937/38, definitivamente fixaram-se no Rio de Janeiro – antiga Capital Federal -, no balneário de Copacabana. Trocaram a placidez do Velho Chico pela imensidão buliçosa do Oceano Atlântico a quebrar quase que mansamente nas areias do Posto Seis.

A FAMÍLIA PEIXOTO ESTABELECIDA NA BELACAP

Habitaram endereços nobres nas ruas Bulhões de Carvalho, Rainha Elizabeth, Ayres Saldanha, Constante Ramos e, por último, Figueiredo Magalhães – pode-se imaginar a quantidade de amigos que conquistaram em todos esses locais –, sempre no bairro de Copacabana, onde Zurica Peixoto deu aulas particulares de Inglês e Português. E se especializou posteriormente em atividades artesanais, sendo perita em arranjos de flores, árvores natalinas e presépios iluminados.

Zurica frequentou o Cassino Atlântico e o Cassino da Urca (elegante, assistia aos espetáculos e animadamente bailava na pista de danças), o Hotel Copacabana Palace (a família lanchava na pérgula regularmente), a Confeitaria Colombo (tomavam o tradicional chá com torradas ao som de violino e piano), o Clube do Fluminense (onde podia brincar sadiamente o Carnaval), e viajou bastante.

Na bucólica Ilha de Paquetá, o pai alugara uma casa à beira-mar e eram muitos os passeios de charrete, bicicletas alugadas e pescarias; no Hotel Quitandinha curtiram o glamour de grandes eventos dos anos 1940; no Promenade Hotel (Parque Bom Clima), hóspedes constantes nas férias, havia banhos de piscina, termas, remadas em barquinhos num pitoresco lago pontilhado por marrequinhos, e caminhadas; além de Caxambu, São Lourenço, Teresópolis etc. Ela ia às praias do Arpoador e Posto Seis, onde jogava peteca e “medicine-ball”. E conhecia de cor os melhores cinemas do bairro, como o Rian, Roxy e Metro.

Mas nunca descuidou de sua fé na religião católica e das idas regulares às paróquias de São Paulo Apóstolo e de Nossa Senhora de Copacabana e Santa Rosa de Lima. Ultimamente, idosa, comparecia à missa na Igreja de Santa Cruz de Copacabana, mais próxima de sua residência.

Funcionária aposentada da Secretaria de Obras do Rio de Janeiro, distante longo tempo de sua bela cidade de Penedo, a “menina Zurica” ou “Miquinha”, guardou na lembrança todas as festas e folguedos de criança, e a linda visão do Rio São Francisco, seu velho conhecido, no qual muitas vezes navegou. Primeiro, fisicamente, e depois, em prodigiosa memória afetiva.

Nunca se casou nem teve filhos. Mas cuidou da avó, dos pais, dos irmãos, da empregada Maria “Ceará” da Conceição Souza (1903 – 1977) – que sempre morou com ela -, dos sobrinhos, e de certa maneira, das cunhadas também, ouvindo-as e aconselhando-as. Aos sobrinhos-netos brasilienses fazia questão de presenteá-los com pequeno regalo nas datas natalícias. Levou uma vida dedicada aos seus semelhantes, com muito amor e carinho.

O FALECIMENTO DE ZURICA PEIXOTO

Zurica partiu aos 90 anos, depois de incômoda deambulação por dois CTIs, onde cativou a todos que a atenderam e ficaram impressionados com a lucidez daquela senhora, fina, educada, bem falante, que conversava animadamente com funcionários e pacientes. E interessava-se pela vida de enfermeiros e enfermeiras, a quem perguntava se eram casados e pedia-lhes para ver as fotos dos filhos.

Ao sobrinho Fernando – a quem se queixava da gélida refrigeração do ambiente e do frio intenso que sentia – sentenciou: “Penso muito em Penedo e em meus pais, não faço outra coisa”. E disse mais: “No CTI também há poesia. Estou fazendo muita poesia e vou passar tudo para o papel depois que sair”.

Não pôde realizar o intento. Zurica Galvão Peixoto – “a poetisa da saudade” – faleceu no começo da noite de 16 de julho de 2005, sábado, na Clínica Ênio Serra, em Laranjeiras. E encarou a morte sem que ninguém estivesse ao seu lado, como a ratificar Miguel de Unamuno (1864 – 1936): “Os homens vivemos juntos, porém cada um morre sozinho e a morte é a suprema solidão”.

LOS HOMBRES VIVIMOS JUNTOS, PERO CADA UNO SE MUERE SOLO Y LA MUERTE ES LA SUPREMA SOLEDAD. (Miguel de Unamuno, “O Sentimento Trágico da Vida”, V)

O título deste vídeo, “Uma Viagem Pelo Mundo Fantástico de Zurica Peixoto”, devo-o ao jornalista ANTONIO CASTIGLIOLA (1951 – 2010). E a iniciativa primeira da publicação dos escritos de Zurica Peixoto, ao jornalista alagoano penedense EVERALDO PEIXOTO GAMA (1919 – 2014).

Fernando Moura Peixoto (ABI 0952-C)

 

 

 

 

 

 

 


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